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Thais Bolton

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COMO A LITERATURA SALVOU MINHA VIDA

February 2, 2026

Como eu quis escrever um livro antes de ler, e aprendi a ler aos 35 anos.

Eu cresci sem saber ler livros.

Para ser justa com a minha infância como leitora, preciso dizer que eu lia muitos gibis. Desde pequena, fui cativada — como tantas crianças brasileiras — pelos gibis da Turma da Mônica. Eu tinha uma caixa inteira cheia deles. Minha mãe comprava tanto gibis novos na banca de jornal quanto me levava aos sebos, onde, para a minha alegria, me deixava encher sacolas com gibis usados. E eu lia todos.

Por isso, agradeço à minha mãe e ao incrível Maurício de Souza por escrever e desenhar a Turma da Mônica e me inspirar desde a infância. Sem eles, é bem provável que eu não tivesse lido absolutamente nada nos meus primeiros anos de vida.

Minha família nunca foi uma família de leitores. Nunca tive, em casa, uma referência de momentos de leitura. Lembro de uma vez ter ganhado um livro de Dia das Crianças de um tio — e ter achado aquilo profundamente decepcionante. Pensei: que presente poderia ser mais entediante do que um livro? É bem provável que eu nunca tenha lido aquele livro.

Não eram apenas meus pais e meu irmão que não liam. Meus primos (pelo menos que eu saiba) também não — com exceção de um. No Natal, no aniversário ou em qualquer outra oportunidade, o que ele pedia de presente? Livros. Eu achava aquilo, no mínimo, peculiar. Eu o achava estranho, mas, ao mesmo tempo, sentia certa admiração. Ele me parecia inteligente.

Um dia, quando minha mãe foi comprar um livro para ele, eu também pedi um. Eu queria me sentir inteligente também. O livro que escolhi, no entanto, tinha praticamente só figuras. Afinal, ler daria muito trabalho — e eu só queria fingir que era inteligente.

Em certa ocasião, uma tia do meu pai, que era professora, nos presenteou com uma caixa gigantesca de livros usados da literatura brasileira. Aquela caixa ficou esquecida por anos em um quartinho fora de casa, onde guardávamos quinquilharias, até que nos mudamos e os livros foram doados. Ainda assim, lembro de folhear todos eles — apenas para ver as figuras. Alguns me chamaram a atenção. Um deles, que nunca li, era O Escaravelho do Diabo. Lembro que a capa me dava arrepios.

Algumas pessoas me perguntam como eu sobrevivi à escola sem ler os livros que as professoras pediam. Minha resposta sincera é: não sei. Se você leu meu post anterior, sabe que minha vida escolar foi desastrosa. O que não era desastroso, no entanto, era a minha habilidade de olhar discretamente a prova dos colegas como uma pequena ajuda para completar a minha.


Lembro de uma história — quando eu já tinha amigos — em que combinei com uma colega de pagar um lanche na cantina se ela fizesse a parte da minha prova que era sobre um livro que deveríamos ter lido. Mas essa história vive naquela região da memória em que já não sei dizer se é mito ou realidade. De qualquer forma, não me lembro de ter lido os livros exigidos na época da escola.


O primeiro livro que me lembro de ter lido na vida foi quando eu já tinha vinte e três anos. Foi O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Um livro mais do que especial para ser o meu primeiro. Eu me encantei com a história, mas ali mesmo dei por encerrada a minha breve carreira de leitora.

No ano seguinte, um amigo insistiu que eu precisava ler outro livro. Esse, porém, era bem maior — cerca de seiscentas páginas. Parecia um desafio enorme, mas o conteúdo me interessava, então resolvi enfrentá-lo. Para minha surpresa, li tudo em poucos dias, sem grande dificuldade.


E essa foi, basicamente, a minha vida literária até eu completar trinta e um anos e me casar com Skylar. Da mesma forma que achava meu primo estranho por gostar de livros, eu achava o meu marido estranho. Por que alguém precisava passar tanto tempo lendo? Que perda de tempo, eu pensava.


Skylar conseguiu fazer com que eu lesse mais dois livros, que achei interessantes. Tentei procurar outros, mas nenhum me chamava a atenção. E, mais uma vez, parei de ler.


Depois dessa longa jornada de quatro livros lidos em toda a minha vida, aos trinta e cinco anos de idade, tive uma ideia brilhante: vou escrever um livro!


Ainda bem que, por um instante, um mínimo de senso crítico resolveu aparecer. Como eu poderia escrever livros se não sabia ler livros? Foi então que me ocorreu que talvez — só talvez — eu precisasse começar a ler alguns.


Gosto de pensar que o destino tem um certo carinho por mim, porque exatamente quando esse pensamento surgiu, fiquei sabendo da existência de um professor de literatura, o professor Felício Freire.


Felício, a quem tenho profunda gratidão, me atendeu prontamente. Ouviu com atenção a minha história como leitora — ou, mais precisamente, a minha falta de história como leitora — e também sobre o livro que eu queria escrever naquele momento.


Ele aceitou ser meu mentor particular de literatura. Aceitou, sobretudo, me ensinar a ler.

A ideia que eu tinha para o meu livro combinou perfeitamente com o gosto do meu professor — um tolkienista dos bons. Foi assim que ele decidiu que eu deveria começar minha jornada literária com quem se tornaria um dos meus maiores mestres: J. R. R. Tolkien.

Comecei por O Hobbit. Segui por O Senhor dos Anéis. Passei por O Silmarillion e por diversos outros livros, até chegar à sua biografia. Lembro de chorar ao ler sobre a sua morte. Para mim, Tolkien nunca deixou de estar vivo. Ele se tornou tão presente quanto um avô carinhoso — desses que ensinam, com delicadeza, aquilo que é essencial.


Em um de seus ensaios, Tolkien escreve sobre os contos de fadas e a sua serventia. Ele fala de três propósitos: resgate, escape e consolo. É exatamente aí que mora a minha salvação.

Ao escrever o título deste texto — Como a literatura salvou minha vida — preciso ser honesta: eu não estava diante de uma ameaça literal de morte. Era algo mais sutil. Era uma “não vida”.


Eu precisava ser resgatada de uma prisão na qual eu vivia. A prisão do não encantamento. A prisão de uma vida presa às coisas mundanas. A prisão de um mundo moderno feito de máquinas, produtividade e urgência. Um mundo sem pausas, sem maravilhamento. Um mundo de ferro. Um ciclo vicioso e perigoso.

Ao começar a ler, fui aos poucos sendo resgatada para o mundo real — um mundo onde o belo, a verdade e a essência predominam. Ao começar a ler, eu me sentia como alguém que nasce de novo. Pude experimentar o encantamento das crianças diante das coisas mais simples da natureza. Tudo passou a ser diferente para mim: o verde da grama, o azul do céu. 


Tudo parecia mais grandioso. 


Esse é o resgate e o escape de que Tolkien fala.


Há também o consolo.


Uma das vivências mais marcantes desse processo aconteceu quando eu precisava cuidar da minha saúde e dirigia até uma clínica onde fazia tratamento. A clínica ficava a uma hora e meia da minha casa, e eu fazia esse trajeto duas vezes por semana.


Em um desses dias, senti-me especialmente sem esperanças. Meu coração estava apertado. Naquele momento, lembrei-me de Frodo e Sam, personagens de O Senhor dos Anéis. Frodo precisava subir uma grande montanha para destruir o anel, mas já não tinha forças. Estava no seu limite após uma longa e dolorosa jornada. Sam, seu fiel amigo, não podia carregar o anel por ele — mas colocou Frodo nas costas e o levou até o topo.


Frodo foi vitorioso no final. Porque um verdadeiro conto de fadas traz sempre, em seu desfecho, a alegria. Como diz uma canção: “Pra tudo tem um jeito / e, se não teve jeito, ainda não chegou ao fim.”

Ao me lembrar da vitória de Frodo, toda a esperança que havia se esvanecido do meu coração retornou naquele instante. Desabei a chorar dentro do carro. Pensei: como pode esse senhor Tolkien ter escrito algo, antes mesmo de eu nascer, que eu tanto precisava ler naquele momento?


É assim que as boas palavras escritas sobrevivem ao tempo. Atravessam séculos e chegam aos corações necessitados. Foi assim também com o grego Homero, que escreveu A Odisseia a cerca de 800 anos antes de Cristo e, ainda assim, consolou o meu coração com seus ventos favoráveis.


Tolkien diz que a Terra-fada com a qual faço um paralelo com a boa literatura é “Para alguns um único vislumbre, para outros o despertar.”


Albert Einstein diz: “Se quer que seus filhos sejam inteligentes, leia contos de fadas para eles. Se quer que sejam ainda mais brilhantes. Leiam ainda mais contos de fadas.”


É verdade que eu comecei um pouco tarde. Mas nunca é tarde para começar. E espero que um dia possa ler meus contos de fadas favoritos aos meus filhos.

A todos os autores que trouxeram e trazem alegria e encantamento à minha vida, deixo aqui a minha profunda e eterna gratidão.


Peço ao meu bom Deus que mantenha meu coração aberto, para que eu possa ver e apreciar todos os Seus maravilhamentos. E me dê força e coragem quando me falhar a fé e me faltar a esperança.

E que os ventos favoráveis soprem sempre sob as velas do meu barco, rumo às sendas da retidão.


PS: Clique aqui para ver minha lista de livros favoritos.

Finding My Voice (Encontrando minha voz). →

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