Como escrever se tornou a bússola do meu coração.
Todos nós somos, de alguma forma, escritores.
Estamos todos escrevendo uma grande história: a história das nossas vidas. Eu sou a escritora da minha biografia.
É claro que existe o grande Escritor. O Senhor, aquele que decide qual será o último capítulo do meu livro e sabe quantas páginas ele terá. E somente a Ele cabe escrever a palavra “Fim”. Ainda assim, é também Ele quem, com sua infinita bondade, me entrega todos os dias uma página em branco e me confia a tarefa de escrevê-la.
Eu nunca sonhei em ser escritora. Na infância, nunca tive um diário, como costumam ter algumas meninas. Acho que eu não tinha coragem de falar das coisas do meu coração nem mesmo para um amigo tão secreto quanto um diário.
Mas sempre gostei de memórias. Sempre amei olhar fotos e vídeos antigos da minha infância. Amo relembrar os Natais felizes, as viagens simples em família, os pequenos acontecimentos que, com o tempo, se tornam grandes.
Aos vinte e quatro anos, escrevi o meu primeiro livro: Mais que uma história de amor. Foi um livro feito para presentear minha mãe, uma tentativa singela de expressar o amor e a gratidão que sinto por ela. Sem ela, e claro, sem meu pai, eu não estaria aqui escrevendo agora. A eles, devo eterna gratidão. Esse livro reunia as memórias que eu carregava até então e que marcaram profundamente a minha história com a minha mãe.
A memória é um fator essencial na construção da nossa história pessoal e do nosso desenvolvimento.
Peter Pan, o famoso menino que não queria crescer, sofria justamente da falta de memória. Cada dia era para ele uma aventura nova, e ele se esquecia das aventuras passadas. Vivia preso em um ciclo contínuo de não aprendizado, sem a possibilidade de transformação. Permanecia sempre com a mesma idade.
A memória nos revela o quanto já navegamos pelos mares da vida. Ela é o ponto de partida da transformação.
Em 2022, aos trinta e cinco anos, comecei enfim a escrever um diário. Dei a ele o nome de A Jornada do Coração, por Thais Bolton. O título da primeira escrita foi O reencontro, e dizia assim:
“A história de um reencontro.
O momento em que ela percebeu o quão longe foi, mas aprendeu que existe um caminho de volta.
O que foi perdido na jornada é hora de recuperar.
Ontem, quando tão pouco escrevia e quase nada falava, ficou para trás.
Hoje, o coração anseia o vento que leva consigo, para o infinito, as histórias de uma vida.”
Foi assim que comecei, de fato, a escrever a história da minha vida.
Marco Aurélio, o último dos cinco imperadores que governaram o Império Romano durante o período conhecido como Pax Romana, mantinha um diário pessoal. Nele, registrava reflexões que serviam como uma espécie de bússola interior para o seu próprio desenvolvimento.
Tudo indica que grande parte dessa coleção, composta por doze livros, foi escrita enquanto Marco Aurélio estava acampado em territórios de guerra, nas fronteiras de seu império. Não era sua intenção publicar aquele diário. Ainda assim, hoje temos a sorte de conhecê-lo, traduzido e preservado sob o título Meditações.
Fechar os olhos, sentar em posição de meditação e simplesmente meditar nunca foi o meu forte. Durante muito tempo, achei que essa fosse a única forma legítima de meditação e me sentia mal por “não saber meditar”.
Mas não é a escrita, afinal, uma forma de meditação?
Escrever as coisas do meu coração exige, no mínimo, para mim um estado meditativo: atenção, silêncio, concentração e memória.
Hoje, meu diário é um verdadeiro guia de navegação. Uma bússola. Eu o releio com frequência para me lembrar sobre aquilo que venho meditando ao longo dos anos.
Será que existe um padrão?
Uma constância?
“Contiue a cavalgar” e “Perseverança é a chave”, por exemplo são palavras que se repetem por várias paginas do meu diário. Assim como outras.
Existe uma linha invisível que tudo conecta?
Sempre amei refletir sobre os pontos que ligam os acontecimentos da vida. Conectar os pontos da minha história é algo profundamente fascinante para mim. Digo a minha história porque só ela é minha e, por isso, é sagrada. Assim como toda história.
Não importa se é a história de um grande capitão que comanda um navio ou a de um simples marujo que varre o convés de ponta a ponta. Cada história é uma história. E toda história, se bem lembrada e bem contada, é um bom livro para se ler.
Como disse Gabriel García Márquez:
“A vida não é o que a gente viveu, mas o que a gente recorda e como recorda para contá-la.”
Hoje, mantenho vários diários, cada um com um propósito: A Jornada do Coração, Diário de Sonhos, Diário de Leitura, Diário de Afirmações, Diário de Navegação, Percepções do Caminho. Todos eles são, de alguma forma, caminhos de volta, caminhos de reencontro comigo mesma. Ferramentas da recordação.
E assim sigo escrevendo e estudando a minha história. O livro da minha vida tem dois escritores e, com certeza, uma leitora. Isso já me basta para escrevê-lo com esmero.
Peço que o grande Escritor sussurre sempre boas inspirações aos meus ouvidos, para que, nas páginas em branco que me cabem escrever, eu escreva uma boa história.
E que eu não tenha tanta vergonha de mim mesma. Pois, como diz Fiódor Dostoiévski, todo o mal vem disso.
Avante, escritores.