Como eu queria ser meu irmão, e percebi que é bom ser eu.
Quando eu tinha entre 4 e 6 anos de idade, lembro-me de ficar intrigada com uma pergunta que vivia em minha cabeça. Eu me perguntava:
“Por que eu sou eu e meu irmão é meu irmão? Por que eu não posso ser meu irmão e meu irmão ser eu?”
Não me lembro de ter chegado a nenhuma resposta satisfatória naquela época. O tempo passou, e eu acabei esquecendo a pergunta. Anos depois, já adulta, ela voltou e então passei a me perguntar por que eu pensava naquilo quando era criança. Parece-me um tema um tanto existencial para uma criança daquela idade.
Também me lembro de que, naquela mesma fase, às vezes, por algum motivo, eu me sentava sozinha em um canto da sala e, triste, dizia a mim mesma:
“Ninguém gosta de mim.”
Hoje vejo essa lembrança como uma pista, uma diretriz para compreender a origem daquela pergunta existencial.
Hoje essa cena até me parece um pouco dramática. Mas, refletindo melhor, penso em quantas vezes, já adulta, vivi situações muito parecidas, quase como um espelho da minha infância.
Aos vinte e três anos, cheguei ao grupo religioso do qual faço parte até hoje. Lembro-me da sensação de finalmente chegar a um lugar que eu sempre havia procurado. Eu me sentia feliz por isso. Mas era um lugar grande, com muitas pessoas, e muitas vezes me vi sentada sozinha no canto de um grande salão, sem coragem de falar com ninguém. Será que, lá no fundo da minha consciência, eu ainda pensava:
“Ninguém gosta de mim?”
Acho provável que sim. É provável também que, até então, eu ainda não soubesse a resposta daquela pergunta: Por que eu sou eu?
A parte interessante nessa pergunta é que ela não termina em “Por que eu sou eu?”. Ela continua:
“Por que eu não posso ser meu irmão e meu irmão ser eu?”
Isso me mostra que eu não queria apenas entender quem eu era. Eu queria ser outra pessoa, no caso, o meu irmão.
O que me faz pensar em um personagem interessante e complexo da mitologia nórdica: Loki.
Neil Gaiman escreve que Loki é bonito, plausível, convincente, simpático e, de longe, o mais astuto e sagaz entre os habitantes de Asgard. E lamenta que haja dentro dele tanta escuridão: tanta raiva, tanta inveja.
Gosto especialmente das palavras “plausível” e “convincente”. Plausível é aquele que merece aplauso e aprovação, aquele que pode ser aceito. Loki é também convincente. Na mitologia, ele possui o poder de mudar de forma, de identidade, de se apresentar como bem entendesse.
Talvez, se eu tivesse esse poder, também o usaria.
Quando criança, eu queria ser meu irmão. Quando adulta, quantas outras pessoas já quis ser? Não sei dizer. Tentar ser outra pessoa foi, por muito tempo, um grande fator de dificuldade na minha vida. Muitas vezes tentei superar o fato de não gostar tanto de mim mesma, fingindo ser outra pessoa e tentando, primeiro, convencer os outros a gostarem de mim. Ou seja, assim como Loki, tentando ser convincente. Tentando ser plausível.
Mas fingir ser outra pessoa é uma sensação esmagadora.
Não sou alguém que estuda filosofia a fundo, mas percebo que minha pergunta de infância tem um tom filosófico. Porque vejo que o caminho para a resposta passa pelo ensinamento simples e ao mesmo tempo profundamente complexo de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo.”
Pode parecer algo simples de fazer. Mas eu me considero, assim como todo ser humano — e também como Loki — um ser complexo, cheio de mistérios a serem desvelados. Somos como aquela clássica imagem de um iceberg, em que vemos apenas o topo acima do mar. Mas é nas profundezas do oceano que habitam os segredos do inconsciente.
Quais são esses segredos?
E como chegar até eles?
Nos meus vinte e poucos anos, eu gostava de desenhar personagens felizes e fofos, passarinhos, flores e outras coisas bonitas. As pessoas amavam meus desenhos, e eu amava que elas os amassem. Era importante, para mim, que as pessoas gostassem do que eu fazia. Era importante eu ser plausível.
Até que alguém, por quem tenho grande respeito e admiração, me disse que não gostava dos meus desenhos. Que eu deveria fazer desenhos mais profundos e interessantes, ou seja, mais verdadeiros. Desenhos que dissessem algo que realmente viesse de dentro de mim.
Afinal, dentro de mim existia apenas beleza ou também sentimentos difíceis, talvez até desprezáveis? Como raiva, inveja ou outros mais?
Fiquei intrigada. E talvez aquele tenha sido o ponto de partida da minha longa jornada rumo a regiões um pouco mais profundas do meu oceano interior. Digo “um pouco” mais profundas porque, para alcançar os lugares mais escuros, é preciso coragem, e coragem é algo que ainda estou aprendendo a cultivar.
Austin Kleon diz:
“Você é uma mistura da sua mãe, do seu pai e de todos os seus ancestrais.”
Em Steal Like an Artist, ele explica de forma bem simples, que também somos uma mistura de tudo o que deixamos entrar em nossas vidas. Somos a soma das nossas influências: dos amigos que escolhemos, dos livros que lemos, das músicas que escutamos, dos filmes que assistimos.
No fim, somos a soma de tudo o que amamos de verdade. Mas, para ser a soma daquilo que amo de verdade, primeiro preciso amar de verdade. Para mim, tudo o que é verdadeiro é simples.
Os Hobbits, personagens da Terra-média de J. R. R. Tolkien, são um bom exemplo disso. Eles amam sinceramente as coisas simples da vida: um bom café da manhã e, claro, um bom segundo café da manhã. Amam cuidar da terra, plantar e colher, dar e receber presentes, contar histórias ao redor da fogueira.
Gosto de brincar que as palavras hobbies e Hobbits estão intimamente conectadas. Quando quero conhecer melhor alguém, pergunto quais são seus “Hobbits”: o que essa pessoa ama fazer quando não precisa provar nada a ninguém. Aquilo que a faz verdadeiramente feliz. Essa tem sido uma boa bússola para me aproximar da resposta da pergunta: por que eu sou?
Mas, se você leu O Hobbit, sabe que os Hobbits também amam conforto. Eles jamais pensam, espontaneamente, em sair para grandes aventuras. Eu também amo conforto, afinal, conforto é bem confortável. Sempre foi confortável desenhar imagens fofas que eu sabia que as pessoas iriam gostar.
Mas conforto é navegar por águas calmas e rasas.
Como disse Abdu’l-Bahá:
“Quanto mais vezes o capitão de um navio enfrenta tempestades e navegações difíceis, maior se torna o seu conhecimento.”
Bilbo Bolseiro, o protagonista de O Hobbit, tornou-se um personagem memorável porque, como um bom herói, saiu da sua zona de conforto. Partiu para a aventura, enfrentou os perigos da jornada, se superou, tornou-se quem ele é e escreveu a sua própria história: Lá e de Volta Outra Vez.
Se sou uma mistura de tudo o que amo, também sou uma mistura de tudo aquilo que tenho coragem de buscar ao navegar por mares mais turbulentos e ao mergulhar em águas mais profundas.
Fazer o que eu realmente amo livre na necessidade sufocante de aplausos. Explorar meu limites. Quebrar meus próprios padrões. Desenhar o mapa de mim mesma. Saber que tenho uma grande história a escrever, a minha. Ser meu próprio herói.
E talvez, assim, eu possa responder à pergunta que me acompanha desde a infância:
Por que eu sou eu?
Aqui estou eu, juntando as peças do grande quebra-cabeça que é a minha vida. E peço ao meu bom Deus que me dê força e coragem para que, nessa grande jornada, eu consiga me livrar da penumbra das máscaras e, afinal, me torne quem eu sou.
Porque tudo o que é secreto, um dia, será revelado.
PS. Sou feliz por meu irmão ser meu irmão e por amá-lo verdadeiramente. E também por ele ter me dado uma cunhada e duas sobrinhas lindas para amar.