O Navio do Capitão Aleixo

Como eu queria ser médica e acabei me tornando artista.

A maioria das crianças sonha em ser algo quando crescer. Comigo não foi diferente. Eu sonhava em ser pediatra.

Meu sonho de criança era comprar um ônibus bem grande, transformá-lo em um consultório ambulante e percorrer o Brasil atendendo crianças que não tinham dinheiro para ir ao médico. Mas, é claro, esse ônibus não seria um ônibus qualquer. Ele precisaria ser divertido, um lugar capaz de fazer as crianças felizes. Quando criança, eu não cheguei a pensar nos detalhes da sua temática. Mas tenho um carinho especial por esse sonho. E o vejo como um sonho interessante.

Posso voltar no tempo e perceber de onde tudo isso começou.

Desde muito cedo, eu já gostava de crianças — crianças menores do que eu. Tive a sorte de crescer com meus primos como se fossem irmãos. Lembro-me bem quando nosso primo caçula nasceu. Eu tinha dez anos. Ver aquele bebê foi amor à primeira vista. Eu o amava profundamente. Para mim, não havia nada mais divertido no mundo do que brincar com ele. Chamávamos-no de “neném” — e assim foi até o dia em que ele criou barba.

Eu cresci, mas meu amor por crianças nunca mudou. Elas sempre foram minhas pessoas favoritas. Para minha sorte, elas sempre gostaram de mim também. Talvez isso explique por que meu sonho era ser pediatra, especificamente, e não qualquer outra especialização médica.

Outro ponto essencial para esse sonho foi a minha maior inspiração na medicina: o meu próprio pediatra, o Dr. Aleixo — ou, como carinhosamente sempre o chamamos, Tio Aleixo.

O Dr. Aleixo me acompanhou desde o parto até meus nove anos de idade, quando infelizmente faleceu. Não posso dizer que me lembro claramente de seu jeito de ser. Mas como sou uma pessoa visual, a imagem dele permanece viva na minha memória: um homem simples, de estatura não muito alta, cabelos escuros, óculos de armação quadrada e um uniforme de manga curta cinza-azulado.

Mais presente ainda na minha lembrança é o seu consultório.

Aquele não era um consultório qualquer. Tudo ali me chamava a atenção. Desde a placa de entrada, que também era o logotipo de seus receituários, cartão de vacina, etc. Era azul e trazia dois marinheiros: um menino e uma menina, um de cada lado, em um clássico estilo dos anos 80.

Aqueles marinheiros éramos nós — seus pacientes. Ao entrar em seu consultório, embarcávamos em seu navio.

A maca de consulta era um grande navio branco e azul. Tudo ao redor fazia parecer que estávamos dentro de um navio maior ainda. Madeira por todos os lados. Um ambiente de gosto fino e requintado. Aquele universo náutico me encantava. Tudo aquilo ficou gravado em meu coração.

Acho que eu queria ter um consultório tão especial quanto o do meu querido Tio Aleixo.

Se você leu meu post Achando Minha Voz, sabe que minha vida escolar foi desastrosa e que precisei abandonar o sonho da medicina. E que desde então, sigo na grande busca pela minha missão — pela minha voz.

E se você leu Como a Literatura Salvou Minha Vida, sabe que cresci sem ler livros. E que foi por isso que conheci a literatura infantil apenas na vida adulta.

Naturalmente, um autor que me marcou profundamente quando entrei nesse universo de livros infantis foi Dr. Seuss — Theodor Seuss Geisel. Encantei-me com sua escrita, seus desenhos e suas histórias. Minha favorita é Como o Grinch Roubou o Natal — talvez porque eu ame o Natal.

Hoje, Dr. Seuss é uma das minhas maiores inspirações.

Curiosamente, quando fazia doutorado em filosofia em Oxford, Geisel foi encorajado por sua esposa a se tornar escritor e ilustrador de livros infantis. Ele não concluiu o doutorado. Adotou o nome Dr. Seuss em homenagem ao pai — cujo grande sonho era que o filho se tornasse médico.

Gabriel, O Pensador — músico, compositor e escritor brasileiro de quem gosto muito —  é filho de médico. Em sua música Linhas Tortas, uma das minhas favoritas, ele canta:

Escuto os corações, como um cardiologista

Traduzo o que eles dizem como faz qualquer artista

Então reflito e me pergunto: que bom artista não é mesmo, de certa forma, um cardiologista?

E que bom médico não é também um artista?

Não é Dr. Seuss um doutor para as crianças — um doutor do coração, da imaginação, do espírito?

E não foi o Tio Aleixo, à sua maneira, um grande artista?

Acho interessante perceber que hoje meus livros favoritos são livros de navegação. Mar, piratas, motins, naufrágios, ilhas, monstros marítimos, capitães, imediatos, marinheiros — são elementos que fazem meu imaginário ir além.

Como leitora, sinto-me como Ismael, narrador de Moby Dick, de Herman Melville. Sempre que ele passa tempo demais em terra firme, conclui que já é mais do que hora de partir para o mar — “navegar um pouco e ver a parte líquida do mundo”.

Nunca deixo de me perguntar de onde vem esse fascínio pelo mar e por esse universo tão cheio de mistérios e símbolos.

Será que vem de tempos distantes, de eras passadas?

Ou da minha carreira mirim de marinheira a bordo do grande navio do Tio Aleixo?

De uma forma ou de outra, aquele grande navio branco e azul foi o livro infantil que nunca li na infância. Foi a semente de um imaginário que segue vivo dentro de mim. E ao seu capitão, meu amado pediatra, agradeço, de coração, pela delicadeza de criar um mundo tão cativante para cuidar de mim e de toda a sua tripulação de marinheiros mirins, aprendendo a navegar pelos mares da vida.

Hoje, grande parte do meu trabalho como ilustradora é dedicada às crianças. Se o navio do Tio Aleixo foi o meu livro infantil, o sonho daquele ônibus que viaja pelo mundo cuidando das crianças continua vivo. Que ônibus é esse? É o que venho descobrindo.

Por ora, a todos os bons médicos e bons escritores — grandes artistas da arte de viver — deixo aqui meus sinceros louvores. Que o bom Deus continue a inspirá-los, hoje e sempre.

E que eu, e todos nós, tenhamos a coragem de mergulhar nas águas profundas dos rios e oceanos do nosso ser, enfrentar os monstros que ainda habitam em nós e, assim, encontrar a chave e o mistério de tudo isso. Que alcemos nossas velas e zarpemos para o mar sem fim.