Por que eu sou eu?

Como eu queria ser meu irmão, e percebi que é bom ser eu.


Quando eu tinha entre 4 e 6 anos de idade, lembro-me de ficar intrigada com uma pergunta que vivia em minha cabeça. Eu me perguntava:


“Por que eu sou eu e meu irmão é meu irmão? Por que eu não posso ser meu irmão e meu irmão ser eu?”


Não me lembro de ter chegado a nenhuma resposta satisfatória naquela época. O tempo passou, e eu acabei esquecendo a pergunta. Anos depois, já adulta, ela voltou e então passei a me perguntar por que eu pensava naquilo quando era criança. Parece-me um tema um tanto existencial para uma criança daquela idade.

Também me lembro de que, naquela mesma fase, às vezes, por algum motivo, eu me sentava sozinha em um canto da sala e, triste, dizia a mim mesma:

“Ninguém gosta de mim.”

Hoje vejo essa lembrança como uma pista, uma diretriz para compreender a origem daquela pergunta existencial.

Hoje essa cena até me parece um pouco dramática. Mas, refletindo melhor, penso em quantas vezes, já adulta, vivi situações muito parecidas, quase como um espelho da minha infância.

Aos vinte e três anos, cheguei ao grupo religioso do qual faço parte até hoje. Lembro-me da sensação de finalmente chegar a um lugar que eu sempre havia procurado. Eu me sentia feliz por isso. Mas era um lugar grande, com muitas pessoas, e muitas vezes me vi sentada sozinha no canto de um grande salão, sem coragem de falar com ninguém. Será que, lá no fundo da minha consciência, eu ainda pensava:

“Ninguém gosta de mim?”


Acho provável que sim. É provável também que, até então, eu ainda não soubesse a resposta daquela pergunta: Por que eu sou eu?


A parte interessante nessa pergunta é que ela não termina em “Por que eu sou eu?”. Ela continua:

“Por que eu não posso ser meu irmão e meu irmão ser eu?” 


Isso me mostra que eu não queria apenas entender quem eu era. Eu queria ser outra pessoa, no caso, o meu irmão.

O que me faz pensar em um personagem interessante e complexo da mitologia nórdica: Loki.

Neil Gaiman escreve que Loki é bonito, plausível, convincente, simpático e, de longe, o mais astuto e sagaz entre os habitantes de Asgard. E lamenta que haja dentro dele tanta escuridão: tanta raiva, tanta inveja.


Gosto especialmente das palavras “plausível” e “convincente”. Plausível é aquele que merece aplauso e aprovação, aquele que pode ser aceito. Loki é também convincente. Na mitologia, ele possui o poder de mudar de forma, de identidade, de se apresentar como bem entendesse.

Talvez, se eu tivesse esse poder, também o usaria. 


Quando criança, eu queria ser meu irmão. Quando adulta, quantas outras pessoas já quis ser? Não sei dizer. Tentar ser outra pessoa foi, por muito tempo, um grande fator de dificuldade na minha vida. Muitas vezes tentei superar o fato de não gostar tanto de mim mesma, fingindo ser outra pessoa e tentando, primeiro, convencer os outros a gostarem de mim. Ou seja, assim como Loki, tentando ser convincente. Tentando ser plausível.


Mas fingir ser outra pessoa é uma sensação esmagadora.


Não sou alguém que estuda filosofia a fundo, mas percebo que minha pergunta de infância tem um tom filosófico. Porque vejo que o caminho para a resposta passa pelo ensinamento simples e ao mesmo tempo profundamente complexo de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo.”

Pode parecer algo simples de fazer. Mas eu me considero, assim como todo ser humano — e também como Loki — um ser complexo, cheio de mistérios a serem desvelados. Somos como aquela clássica imagem de um iceberg, em que vemos apenas o topo acima do mar. Mas é nas profundezas do oceano que habitam os segredos do inconsciente.


Quais são esses segredos?


E como chegar até eles?


Nos meus vinte e poucos anos, eu gostava de desenhar personagens felizes e fofos, passarinhos, flores e outras coisas bonitas. As pessoas amavam meus desenhos, e eu amava que elas os amassem. Era importante, para mim, que as pessoas gostassem do que eu fazia. Era importante eu ser plausível.


Até que alguém, por quem tenho grande respeito e admiração, me disse que não gostava dos meus desenhos. Que eu deveria fazer desenhos mais profundos e interessantes, ou seja, mais verdadeiros. Desenhos que dissessem algo que realmente viesse de dentro de mim.

Afinal, dentro de mim existia apenas beleza ou também sentimentos difíceis, talvez até desprezáveis? Como raiva, inveja ou outros mais?


Fiquei intrigada. E talvez aquele tenha sido o ponto de partida da minha longa jornada rumo a regiões um pouco mais profundas do meu oceano interior. Digo “um pouco” mais profundas porque, para alcançar os lugares mais escuros, é preciso coragem, e coragem é algo que ainda estou aprendendo a cultivar.


Austin Kleon diz:


“Você é uma mistura da sua mãe, do seu pai e de todos os seus ancestrais.”

Em Steal Like an Artist, ele explica de forma bem simples, que também somos uma mistura de tudo o que deixamos entrar em nossas vidas. Somos a soma das nossas influências: dos amigos que escolhemos, dos livros que lemos, das músicas que escutamos, dos filmes que assistimos.

No fim, somos a soma de tudo o que amamos de verdade. Mas, para ser a soma daquilo que amo de verdade, primeiro preciso amar de verdade. Para mim, tudo o que é verdadeiro é simples.


Os Hobbits, personagens da Terra-média de J. R. R. Tolkien, são um bom exemplo disso. Eles amam sinceramente as coisas simples da vida: um bom café da manhã e, claro, um bom segundo café da manhã. Amam cuidar da terra, plantar e colher, dar e receber presentes, contar histórias ao redor da fogueira.

Gosto de brincar que as palavras hobbies e Hobbits estão intimamente conectadas. Quando quero conhecer melhor alguém, pergunto quais são seus “Hobbits”: o que essa pessoa ama fazer quando não precisa provar nada a ninguém. Aquilo que a faz verdadeiramente feliz. Essa tem sido uma boa bússola para me aproximar da resposta da pergunta: por que eu sou?


Mas, se você leu O Hobbit, sabe que os Hobbits também amam conforto. Eles jamais pensam, espontaneamente, em sair para grandes aventuras. Eu também amo conforto, afinal, conforto é bem confortável. Sempre foi confortável desenhar imagens fofas que eu sabia que as pessoas iriam gostar.

Mas conforto é navegar por águas calmas e rasas.

Como disse Abdu’l-Bahá:

“Quanto mais vezes o capitão de um navio enfrenta tempestades e navegações difíceis, maior se torna o seu conhecimento.”


Bilbo Bolseiro, o protagonista de O Hobbit, tornou-se um personagem memorável porque, como um bom herói, saiu da sua zona de conforto. Partiu para a aventura, enfrentou os perigos da jornada, se superou, tornou-se quem ele é e escreveu a sua própria história: Lá e de Volta Outra Vez.


Se sou uma mistura de tudo o que amo, também sou uma mistura de tudo aquilo que tenho coragem de buscar ao navegar por mares mais turbulentos e ao mergulhar em águas mais profundas.


Fazer o que eu realmente amo livre na necessidade sufocante de aplausos. Explorar meu limites. Quebrar meus próprios padrões. Desenhar o mapa de mim mesma. Saber que tenho uma grande história a escrever, a minha. Ser meu próprio herói.

E talvez, assim, eu possa responder à pergunta que me acompanha desde a infância:

Por que eu sou eu?

Aqui estou eu, juntando as peças do grande quebra-cabeça que é a minha vida. E peço ao meu bom Deus que me dê força e coragem para que, nessa grande jornada, eu consiga me livrar da penumbra das máscaras e, afinal, me torne quem eu sou. 


Porque tudo o que é secreto, um dia, será revelado. 


PS. Sou feliz por meu irmão ser meu irmão e por amá-lo verdadeiramente. E também por ele ter me dado uma cunhada e duas sobrinhas lindas para amar.

O Navio do Capitão Aleixo

Como eu queria ser médica e acabei me tornando artista.

A maioria das crianças sonha em ser algo quando crescer. Comigo não foi diferente. Eu sonhava em ser pediatra.

Meu sonho de criança era comprar um ônibus bem grande, transformá-lo em um consultório ambulante e percorrer o Brasil atendendo crianças que não tinham dinheiro para ir ao médico. Mas, é claro, esse ônibus não seria um ônibus qualquer. Ele precisaria ser divertido, um lugar capaz de fazer as crianças felizes. Quando criança, eu não cheguei a pensar nos detalhes da sua temática. Mas tenho um carinho especial por esse sonho. E o vejo como um sonho interessante.

Posso voltar no tempo e perceber de onde tudo isso começou.

Desde muito cedo, eu já gostava de crianças — crianças menores do que eu. Tive a sorte de crescer com meus primos como se fossem irmãos. Lembro-me bem quando nosso primo caçula nasceu. Eu tinha dez anos. Ver aquele bebê foi amor à primeira vista. Eu o amava profundamente. Para mim, não havia nada mais divertido no mundo do que brincar com ele. Chamávamos-no de “neném” — e assim foi até o dia em que ele criou barba.

Eu cresci, mas meu amor por crianças nunca mudou. Elas sempre foram minhas pessoas favoritas. Para minha sorte, elas sempre gostaram de mim também. Talvez isso explique por que meu sonho era ser pediatra, especificamente, e não qualquer outra especialização médica.

Outro ponto essencial para esse sonho foi a minha maior inspiração na medicina: o meu próprio pediatra, o Dr. Aleixo — ou, como carinhosamente sempre o chamamos, Tio Aleixo.

O Dr. Aleixo me acompanhou desde o parto até meus nove anos de idade, quando infelizmente faleceu. Não posso dizer que me lembro claramente de seu jeito de ser. Mas como sou uma pessoa visual, a imagem dele permanece viva na minha memória: um homem simples, de estatura não muito alta, cabelos escuros, óculos de armação quadrada e um uniforme de manga curta cinza-azulado.

Mais presente ainda na minha lembrança é o seu consultório.

Aquele não era um consultório qualquer. Tudo ali me chamava a atenção. Desde a placa de entrada, que também era o logotipo de seus receituários, cartão de vacina, etc. Era azul e trazia dois marinheiros: um menino e uma menina, um de cada lado, em um clássico estilo dos anos 80.

Aqueles marinheiros éramos nós — seus pacientes. Ao entrar em seu consultório, embarcávamos em seu navio.

A maca de consulta era um grande navio branco e azul. Tudo ao redor fazia parecer que estávamos dentro de um navio maior ainda. Madeira por todos os lados. Um ambiente de gosto fino e requintado. Aquele universo náutico me encantava. Tudo aquilo ficou gravado em meu coração.

Acho que eu queria ter um consultório tão especial quanto o do meu querido Tio Aleixo.

Se você leu meu post Achando Minha Voz, sabe que minha vida escolar foi desastrosa e que precisei abandonar o sonho da medicina. E que desde então, sigo na grande busca pela minha missão — pela minha voz.

E se você leu Como a Literatura Salvou Minha Vida, sabe que cresci sem ler livros. E que foi por isso que conheci a literatura infantil apenas na vida adulta.

Naturalmente, um autor que me marcou profundamente quando entrei nesse universo de livros infantis foi Dr. Seuss — Theodor Seuss Geisel. Encantei-me com sua escrita, seus desenhos e suas histórias. Minha favorita é Como o Grinch Roubou o Natal — talvez porque eu ame o Natal.

Hoje, Dr. Seuss é uma das minhas maiores inspirações.

Curiosamente, quando fazia doutorado em filosofia em Oxford, Geisel foi encorajado por sua esposa a se tornar escritor e ilustrador de livros infantis. Ele não concluiu o doutorado. Adotou o nome Dr. Seuss em homenagem ao pai — cujo grande sonho era que o filho se tornasse médico.

Gabriel, O Pensador — músico, compositor e escritor brasileiro de quem gosto muito —  é filho de médico. Em sua música Linhas Tortas, uma das minhas favoritas, ele canta:

Escuto os corações, como um cardiologista

Traduzo o que eles dizem como faz qualquer artista

Então reflito e me pergunto: que bom artista não é mesmo, de certa forma, um cardiologista?

E que bom médico não é também um artista?

Não é Dr. Seuss um doutor para as crianças — um doutor do coração, da imaginação, do espírito?

E não foi o Tio Aleixo, à sua maneira, um grande artista?

Acho interessante perceber que hoje meus livros favoritos são livros de navegação. Mar, piratas, motins, naufrágios, ilhas, monstros marítimos, capitães, imediatos, marinheiros — são elementos que fazem meu imaginário ir além.

Como leitora, sinto-me como Ismael, narrador de Moby Dick, de Herman Melville. Sempre que ele passa tempo demais em terra firme, conclui que já é mais do que hora de partir para o mar — “navegar um pouco e ver a parte líquida do mundo”.

Nunca deixo de me perguntar de onde vem esse fascínio pelo mar e por esse universo tão cheio de mistérios e símbolos.

Será que vem de tempos distantes, de eras passadas?

Ou da minha carreira mirim de marinheira a bordo do grande navio do Tio Aleixo?

De uma forma ou de outra, aquele grande navio branco e azul foi o livro infantil que nunca li na infância. Foi a semente de um imaginário que segue vivo dentro de mim. E ao seu capitão, meu amado pediatra, agradeço, de coração, pela delicadeza de criar um mundo tão cativante para cuidar de mim e de toda a sua tripulação de marinheiros mirins, aprendendo a navegar pelos mares da vida.

Hoje, grande parte do meu trabalho como ilustradora é dedicada às crianças. Se o navio do Tio Aleixo foi o meu livro infantil, o sonho daquele ônibus que viaja pelo mundo cuidando das crianças continua vivo. Que ônibus é esse? É o que venho descobrindo.

Por ora, a todos os bons médicos e bons escritores — grandes artistas da arte de viver — deixo aqui meus sinceros louvores. Que o bom Deus continue a inspirá-los, hoje e sempre.

E que eu, e todos nós, tenhamos a coragem de mergulhar nas águas profundas dos rios e oceanos do nosso ser, enfrentar os monstros que ainda habitam em nós e, assim, encontrar a chave e o mistério de tudo isso. Que alcemos nossas velas e zarpemos para o mar sem fim.

COMO A LITERATURA SALVOU MINHA VIDA

Como eu quis escrever um livro antes de ler, e aprendi a ler aos 35 anos.

Eu cresci sem saber ler livros.

Para ser justa com a minha infância como leitora, preciso dizer que eu lia muitos gibis. Desde pequena, fui cativada — como tantas crianças brasileiras — pelos gibis da Turma da Mônica. Eu tinha uma caixa inteira cheia deles. Minha mãe comprava tanto gibis novos na banca de jornal quanto me levava aos sebos, onde, para a minha alegria, me deixava encher sacolas com gibis usados. E eu lia todos.

Por isso, agradeço à minha mãe e ao incrível Maurício de Souza por escrever e desenhar a Turma da Mônica e me inspirar desde a infância. Sem eles, é bem provável que eu não tivesse lido absolutamente nada nos meus primeiros anos de vida.

Minha família nunca foi uma família de leitores. Nunca tive, em casa, uma referência de momentos de leitura. Lembro de uma vez ter ganhado um livro de Dia das Crianças de um tio — e ter achado aquilo profundamente decepcionante. Pensei: que presente poderia ser mais entediante do que um livro? É bem provável que eu nunca tenha lido aquele livro.

Não eram apenas meus pais e meu irmão que não liam. Meus primos (pelo menos que eu saiba) também não — com exceção de um. No Natal, no aniversário ou em qualquer outra oportunidade, o que ele pedia de presente? Livros. Eu achava aquilo, no mínimo, peculiar. Eu o achava estranho, mas, ao mesmo tempo, sentia certa admiração. Ele me parecia inteligente.

Um dia, quando minha mãe foi comprar um livro para ele, eu também pedi um. Eu queria me sentir inteligente também. O livro que escolhi, no entanto, tinha praticamente só figuras. Afinal, ler daria muito trabalho — e eu só queria fingir que era inteligente.

Em certa ocasião, uma tia do meu pai, que era professora, nos presenteou com uma caixa gigantesca de livros usados da literatura brasileira. Aquela caixa ficou esquecida por anos em um quartinho fora de casa, onde guardávamos quinquilharias, até que nos mudamos e os livros foram doados. Ainda assim, lembro de folhear todos eles — apenas para ver as figuras. Alguns me chamaram a atenção. Um deles, que nunca li, era O Escaravelho do Diabo. Lembro que a capa me dava arrepios.

Algumas pessoas me perguntam como eu sobrevivi à escola sem ler os livros que as professoras pediam. Minha resposta sincera é: não sei. Se você leu meu post anterior, sabe que minha vida escolar foi desastrosa. O que não era desastroso, no entanto, era a minha habilidade de olhar discretamente a prova dos colegas como uma pequena ajuda para completar a minha.


Lembro de uma história — quando eu já tinha amigos — em que combinei com uma colega de pagar um lanche na cantina se ela fizesse a parte da minha prova que era sobre um livro que deveríamos ter lido. Mas essa história vive naquela região da memória em que já não sei dizer se é mito ou realidade. De qualquer forma, não me lembro de ter lido os livros exigidos na época da escola.


O primeiro livro que me lembro de ter lido na vida foi quando eu já tinha vinte e três anos. Foi O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Um livro mais do que especial para ser o meu primeiro. Eu me encantei com a história, mas ali mesmo dei por encerrada a minha breve carreira de leitora.

No ano seguinte, um amigo insistiu que eu precisava ler outro livro. Esse, porém, era bem maior — cerca de seiscentas páginas. Parecia um desafio enorme, mas o conteúdo me interessava, então resolvi enfrentá-lo. Para minha surpresa, li tudo em poucos dias, sem grande dificuldade.


E essa foi, basicamente, a minha vida literária até eu completar trinta e um anos e me casar com Skylar. Da mesma forma que achava meu primo estranho por gostar de livros, eu achava o meu marido estranho. Por que alguém precisava passar tanto tempo lendo? Que perda de tempo, eu pensava.


Skylar conseguiu fazer com que eu lesse mais dois livros, que achei interessantes. Tentei procurar outros, mas nenhum me chamava a atenção. E, mais uma vez, parei de ler.


Depois dessa longa jornada de quatro livros lidos em toda a minha vida, aos trinta e cinco anos de idade, tive uma ideia brilhante: vou escrever um livro!


Ainda bem que, por um instante, um mínimo de senso crítico resolveu aparecer. Como eu poderia escrever livros se não sabia ler livros? Foi então que me ocorreu que talvez — só talvez — eu precisasse começar a ler alguns.


Gosto de pensar que o destino tem um certo carinho por mim, porque exatamente quando esse pensamento surgiu, fiquei sabendo da existência de um professor de literatura, o professor Felício Freire.


Felício, a quem tenho profunda gratidão, me atendeu prontamente. Ouviu com atenção a minha história como leitora — ou, mais precisamente, a minha falta de história como leitora — e também sobre o livro que eu queria escrever naquele momento.


Ele aceitou ser meu mentor particular de literatura. Aceitou, sobretudo, me ensinar a ler.

A ideia que eu tinha para o meu livro combinou perfeitamente com o gosto do meu professor — um tolkienista dos bons. Foi assim que ele decidiu que eu deveria começar minha jornada literária com quem se tornaria um dos meus maiores mestres: J. R. R. Tolkien.

Comecei por O Hobbit. Segui por O Senhor dos Anéis. Passei por O Silmarillion e por diversos outros livros, até chegar à sua biografia. Lembro de chorar ao ler sobre a sua morte. Para mim, Tolkien nunca deixou de estar vivo. Ele se tornou tão presente quanto um avô carinhoso — desses que ensinam, com delicadeza, aquilo que é essencial.


Em um de seus ensaios, Tolkien escreve sobre os contos de fadas e a sua serventia. Ele fala de três propósitos: resgate, escape e consolo. É exatamente aí que mora a minha salvação.

Ao escrever o título deste texto — Como a literatura salvou minha vida — preciso ser honesta: eu não estava diante de uma ameaça literal de morte. Era algo mais sutil. Era uma “não vida”.


Eu precisava ser resgatada de uma prisão na qual eu vivia. A prisão do não encantamento. A prisão de uma vida presa às coisas mundanas. A prisão de um mundo moderno feito de máquinas, produtividade e urgência. Um mundo sem pausas, sem maravilhamento. Um mundo de ferro. Um ciclo vicioso e perigoso.

Ao começar a ler, fui aos poucos sendo resgatada para o mundo real — um mundo onde o belo, a verdade e a essência predominam. Ao começar a ler, eu me sentia como alguém que nasce de novo. Pude experimentar o encantamento das crianças diante das coisas mais simples da natureza. Tudo passou a ser diferente para mim: o verde da grama, o azul do céu. 


Tudo parecia mais grandioso. 


Esse é o resgate e o escape de que Tolkien fala.


Há também o consolo.


Uma das vivências mais marcantes desse processo aconteceu quando eu precisava cuidar da minha saúde e dirigia até uma clínica onde fazia tratamento. A clínica ficava a uma hora e meia da minha casa, e eu fazia esse trajeto duas vezes por semana.


Em um desses dias, senti-me especialmente sem esperanças. Meu coração estava apertado. Naquele momento, lembrei-me de Frodo e Sam, personagens de O Senhor dos Anéis. Frodo precisava subir uma grande montanha para destruir o anel, mas já não tinha forças. Estava no seu limite após uma longa e dolorosa jornada. Sam, seu fiel amigo, não podia carregar o anel por ele — mas colocou Frodo nas costas e o levou até o topo.


Frodo foi vitorioso no final. Porque um verdadeiro conto de fadas traz sempre, em seu desfecho, a alegria. Como diz uma canção: “Pra tudo tem um jeito / e, se não teve jeito, ainda não chegou ao fim.”

Ao me lembrar da vitória de Frodo, toda a esperança que havia se esvanecido do meu coração retornou naquele instante. Desabei a chorar dentro do carro. Pensei: como pode esse senhor Tolkien ter escrito algo, antes mesmo de eu nascer, que eu tanto precisava ler naquele momento?


É assim que as boas palavras escritas sobrevivem ao tempo. Atravessam séculos e chegam aos corações necessitados. Foi assim também com o grego Homero, que escreveu A Odisseia a cerca de 800 anos antes de Cristo e, ainda assim, consolou o meu coração com seus ventos favoráveis.


Tolkien diz que a Terra-fada com a qual faço um paralelo com a boa literatura é “Para alguns um único vislumbre, para outros o despertar.”


Albert Einstein diz: “Se quer que seus filhos sejam inteligentes, leia contos de fadas para eles. Se quer que sejam ainda mais brilhantes. Leiam ainda mais contos de fadas.”


É verdade que eu comecei um pouco tarde. Mas nunca é tarde para começar. E espero que um dia possa ler meus contos de fadas favoritos aos meus filhos.

A todos os autores que trouxeram e trazem alegria e encantamento à minha vida, deixo aqui a minha profunda e eterna gratidão.


Peço ao meu bom Deus que mantenha meu coração aberto, para que eu possa ver e apreciar todos os Seus maravilhamentos. E me dê força e coragem quando me falhar a fé e me faltar a esperança.

E que os ventos favoráveis soprem sempre sob as velas do meu barco, rumo às sendas da retidão.


PS: Clique aqui para ver minha lista de livros favoritos.

Finding My Voice (Encontrando minha voz).

Como meu agente literário me pediu para encontrar minha voz, e decidi começar esse blog.


Olá a quem chegou até aqui.


Meu nome é Thais Bolton. Sou ilustradora e escritora. Sou brasileira e moro na Flórida com meu marido, Skylar.

Nunca pensei em ter um blog. Minha presença nas redes sociais sempre foi bastante restrita ao meu trabalho de ilustração.

Comecei este blog por alguns motivos. O principal deles está no título do meu primeiro post: "Finding My Voice" (Encontrando minha voz).

É um título interessante — pelo menos para mim.


Entre os seis e os onze anos de idade, eu não tive amigos na escola. Não era por falta de vontade, mas porque eu não sabia falar. Quando alguma criança mais bondosa — ou talvez mais obediente à diretora — era encorajada a tentar fazer amizade comigo, vinha até mim na hora do recreio. A criança saía frustrada por não conseguir ouvir minha voz tímida e baixa, e eu ainda mais frustrada por não conseguir me comunicar.


Foram anos de sofrimento. Ir para a escola era sinônimo de tortura. Todos os dias, ao passar pelo portão de entrada daquele lugar temido, eu sentia que estava entrando no labirinto do Minotauro — completamente perdida, com uma fera sempre prestes a me atacar. Perdi a conta de quantos exames médicos fiz por causa de fortes dores de cabeça diárias. Nenhum diagnóstico jamais foi encontrado.


Em casa, eu era uma criança “normal”. Falava o que se espera de uma criança da minha idade.

Desenhar sempre foi meu maior hobby. Talvez o isolamento em que eu vivia na escola fosse um solo fértil para a criatividade.


Meus cadernos viviam cheios de desenhos. Ainda assim, eu dizia que queria ser médica pediatra. Repetia com convicção: “Quando eu crescer, vou ser médica”. Minha tia sempre dizia que eu seria ilustradora. Eu achava aquilo bobagem. Desenhar era só um hobby.

Minha vida escolar foi tão desastrosa quanto minha habilidade de fazer amigos. Em algum momento, tive que desistir da ideia de ser médica — o que, olhando hoje, parece uma decisão bastante sensata para alguém que quase desmaia toda vez que vê sangue.


Na adolescência, eu achava que a frase “Sou a pior no que faço melhor”, da música Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, me definia perfeitamente. Dá para perceber que minha autoestima não era das mais altas.

Minha mãe tinha sérias preocupações sobre o que eu seria na vida. Eu não estava tão preocupada assim. Continuava desenhando e tocando guitarra.


Por sorte do destino, acabei cursando faculdade de design gráfico. Trabalhei em boas agências. Amava o glamour de morar em São Paulo, a maior cidade do Brasil, e ter um trabalho “cool”. Adorava fazer hora extra. Me sentia o máximo quando encontrava, no mercado, uma embalagem que eu tinha criado. Aquilo funcionava como uma validação pessoal.

Gostei tanto daquela vida de design que acabei esquecendo de desenhar. Desenhar deixou de ser meu hobby. Aliás, acho que eu já não tinha mais hobbies. Estava ocupada demais para isso.

Agora não posso deixar de me lembrar do nosso querido aviador — aquele que um dia foi cativado por um Pequeno Príncipe. Aquele que, quando menino, desenhou uma jibóia que havia engolido um elefante e foi desencorajado pelos adultos, aconselhado a deixar de lado os desenhos e se dedicar à geografia, à história ou à matemática. Foi assim o fim de uma promissora carreira de pintor.


O adulto que me desencorajou fui eu mesma.


E assim, meus desenhos ficaram adormecidos no tempo, guardados numa antiga pasta da infância e da adolescência. O tempo passou, e eu conheci um grande ilustrador: Tiago Hoisel. Por sorte minha, ele se tornou não só uma grande inspiração, mas também um grande amigo, um irmão e meu padrinho de casamento.

Conheci o Tiago por intermédio da minha irmã de coração, Rachel, que se casou com ele. Quando vi o trabalho do Tiago, algo mudou. Fiquei profundamente inspirada e, de repente, me lembrei daquele antigo hobby que tanto gostava.


Comecei a desenhar novamente, sem a menor pretensão de um dia ser ilustradora profissional. Afinal, para isso, eu teria que ser pelo menos tão boa quanto a minha inspiração. E como eu poderia ser tão boa quanto o Tiago?


Em certo sentido, eu estava fazendo jus às minhas próprias palavras de criança: aquilo era só um hobby. Enquanto isso, eu continuava fazendo embalagens.

Mas algo dentro de mim tinha mudado. Já não achava graça em encontrar minhas embalagens no mercado. Achava menos graça ainda em ir para a agência e fazer horas extras. Minha vida parecia resolvida, mas, de repente, havia um vazio dentro de mim.


Eu tinha encontrado um problema? Ou uma solução?

Mais uma vez, por sorte do destino, fui aos Estados Unidos e consegui uma entrevista em uma das melhores agências de design de San Francisco. O generoso diretor de arte da agência, Paul Bennett, me recebeu para avaliar meu portfólio.


É bem provável que ele não se lembre de mim. Mas a existência dele é essencial na minha história.


Era 2018. Meu portfólio estava repleto de embalagens e projetos gráficos. No final, timidamente, incluí meus desenhos recentes — aqueles que eu havia feito inspirada pelo trabalho do Tiago. No fundo, acho que eu ainda esperava que minha tia estivesse certa a vida toda. Que alguém visse meus desenhos. Que alguém gostasse. Que talvez eu pudesse ser ilustradora.

Paul analisou meu portfólio com cuidado e atenção. Então me perguntou se eu gostaria de ouvir um conselho.

Quanta gentileza. Como eu poderia não querer ouvir?


Seu conselho foi como aqueles convites da infância — das crianças que queriam ser minhas amigas na escola. Era tudo o que eu queria, mas não podia. Era um convite para eu falar, me expressar. Para encontrar a minha voz.

Ele elogiou meu trabalho como designer, mas disse que meu grande diferencial estava naquela última seção do portfólio.

Sim. Meus desenhos.


“Você precisa trabalhar com isso.”


Foram essas as palavras.


E, naquele instante, a frase “Sou a pior no que faço melhor” voltou a ecoar dentro de mim.

Existe um ditado popular que diz que a comparação é o ladrão da alegria. É provável que esse ladrão já me assombrasse desde a época da escola. Mas foi na tentativa de trabalhar com desenho que ele se fez mais presente.


Toda a alegria que eu tinha em desenhar quando criança, ou de desenhar de forma despretensiosa, começou a se extinguir no momento em que decidi me tornar uma ilustradora profissional.

Esse caminho árduo começou em 2015, quando voltei dos Estados Unidos e contei ao Tiago que Paul havia dito que eu deveria trabalhar com ilustração. Tiago respondeu que talvez fosse possível, mas que eu teria que estudar muito — e enfatizou a palavra muito.


E assim eu fiz. Talvez não da maneira mais correta. Ignorei alguns conselhos, pulei etapas importantes no processo de aprendizado do desenho — etapas nas quais não preciso entrar em detalhes aqui, mas que certamente não recomendo a ninguém que esteja começando a aprender a desenhar.


Nesse período, algo interessante acontecia dentro de mim. Dois extremos atuavam ao mesmo tempo, impedindo qualquer equilíbrio. De um lado, aquela velha frase de Kurt Cobain se fazia presente, e eu me achava a pior desenhista que poderia existir. Do outro, eu acreditava que já estava pronta, que não havia muito mais a aprender sobre desenho. Faltava apenas que alguém do Estúdio Walt Disney me descobrisse — e, com certeza, eu seria contratada.

Foi com esse pensamento que, em 2018, me mudei para os Estados Unidos para cursar o mestrado em Desenvolvimento Visual.

Eu amava o glamour de morar em San Francisco, na Califórnia, e estudar arte. Cruzava a cidade na minha scooter acreditando estar vivendo o melhor momento da minha vida. Para mim, o sucesso me aguardava na esquina. Mas, por dentro, bem no fundo, naquele lugar escondido, o ladrão da alegria seguia me consumindo.

Minha mãe pode contar quantas ligações recebeu da filha chorando, muitas vezes do banheiro da universidade, querendo desistir por “não saber desenhar”. No primeiro dia de aula de uma disciplina de pintura a óleo, o professor pediu que eu me retirasse da sala. Disse que, apenas ao me ver tentar desenhar um círculo, já sabia que eu não sabia desenhar — quanto mais pintar a óleo. A única nota dez que tirei durante o mestrado foi no aprendizado de quanto eu ainda tinha a aprender.


Sobrevivi ao mestrado. Não consegui o estágio que tanto queria e perdi as contas de quantos “nãos” recebi de estúdios de animação.

Mas também recebi alguns “sins”. Desde então, venho trabalhando com desenho. Mais adiante, cheguei até a realizar aquele sonho de trabalhar para a Disney. Mas, naquele momento, eu já começava a perceber algo importante: eu não precisava de validação alguma para existir. E aquele trabalho que tanto sonhei não passou de um trabalho. Com todo o respeito e admiração que tenho pela vida e pelo legado do Sr. Walt Disney, desenhar a Elsa ou o Mickey não preenchia o vazio que eu sentia dentro de mim.


Meu irmão disse que eu deveria procurar um psicólogo quando contei que iria me demitir. Espero que ele saiba que aquela foi uma decisão de vida ou morte interna — parte essencial da minha busca para encontrar a minha voz.


Em 2024, depois de muito suor, recebi finalmente um “sim” que eu procurava havia muito tempo. Meus queridos agentes literários, Ethan e Heather Long, acreditaram no meu trabalho. Desde então, Ethan vem me orientando e lapidando para que eu possa me tornar a melhor versão de mim mesma. Recentemente, em uma ligação, ele me disse algo que é a razão de eu estar escrevendo aqui.


Ele disse que eu tenho bons elementos para chegar onde quero com o meu trabalho — mas que ainda faltava algo essencial: a minha voz.


Foram palavras dele para mim:

“Experimente. Explore. Quebre seus padrões. Brinque até descobrir algo que pareça mais arriscado, mais ousado — talvez até um pouco perigoso.”

Eu leio essas palavras todos os dias.


Levo muito a sério os deveres de casa que ele me passa. Para quebrar padrões, é preciso primeiro reconhecê-los. Padrões não apenas no desenho em si, mas também aqueles que vivem internamente — naquele lugar escondido que ainda busca, de forma sorrateira, antigas validações e continua sendo assombrado pelo ladrão da alegria.


No meio dessa busca pela minha voz, meu amigo João Arleo me recomendou o livro Roube como um Artista, de Austin Kleon. Essa é outra razão pela qual estou escrevendo aqui. Entre tantas boas ideias que o livro traz, há uma lista de coisas a fazer. Um dos itens da lista que eu ainda não fazia era ter um blog. Achei o conselho válido — e resolvi segui-lo.

Aqui estou, buscando reencontrar a voz que um dia perdi lá na infância. 

Há esperança, pois no fundo do coração, onde moram as coisas mais escondidas, também habita o mistério da renovação. Que Deus me permita reencontrar a alegria, com o coração livre e despreocupado. E que minhas palavras sejam sempre coroadas com a grinalda da graça.


Continua…

(Como a literatura salvou a minha vida)

Até o próximo post.


Agradecimentos: A todas as pessoas citadas no texto, ao David Hartmann, diretor de arte da Disney, que me deu a oportunidade de trabalhar lá, a todos os meus incríveis antigos colegas de trabalho da Disney, com quem tive a honra de trabalhar.